terça-feira, 4 de novembro de 2014

Entrevista com Jota Medeiros


Jota Medeiros é artista multimídia, poeta, compositor, crítico de arte, curador, editor e coordenador do Museu Abraham Palatnik do NAC/UFRN. Nascido em João Pessoa-PB em 1958, reside em Natal-RN desde 1967. Figura emblemática da vanguarda potiguar, é um dos poetas visuais mais importantes do Brasil e atuou intensamente no final da década de setenta e durante a década de oitenta como um dos ícones da Arte-Postal. Autor dos livros Progressão (Stempelplates, 1978), Geração Alternativa – Antilogia Poética Potiguar (Amarela edições, 1997), Na tal Futurista – um breve panorama sincrônico das artes visuais norte-rio-grandenses (Sebo vermelho, 2011). Jota Medeiros também escreveu os livros de poemas Aorigem Diágora (Sol Negro, 2012), Mar Alter (inédito) e Iubilate Deo (Sol Negro, 2012). Na entrevista que segue, o artista nos contará um pouco sobre seu livro Aorigem Diágora e sua Poesia Visual. (R. B.)


R. B.: Aorigem Diágora foi escrito em 1987. Nesse mesmo ano, ganhou o 1º lugar no Prêmio Auta de Souza. Por que esperou tanto tempo para publicá-lo?

J. M.:Le silence est d’or” (Saint Jean Crysostome). Pela falta de recursos e/ou de um editor… ou até de iniciativa própria... Parece paradoxal, eu sendo editor. Publiquei dois livros do sofisticado poeta Francisco Ivan, também o romance de João da Rua, “Temporada de Ingênios”, marco da “Geração Alternativa”.

R. B.: Qual era o clima poético do momento (em Natal-RN e fora)?

J. M.: O clima poético era efervescente. Havia “O Galo”, jornal literário da Fundação José Augusto sob a editoria da poeta Marize Castro, do qual eu fui assessor especial. Lá fora, publicações alternativas, suplementos literários, zines e afins. O surgimento de coletivos de artes visuais como o NUCLEART (1986), o OXENTE (1987), culminando com a mostra Tempos e Espaços de Natal, na Galeria Metropolitana Aloísio Magalhães (atual MAMAM) na cidade do Recife. Entre outros eventos ocorridos durante este ano, a exemplo o Festival de Artes de Natal.

R. B.: Que leituras você empreendia na época?

J. M.: As mais diversas: James Joyce, poetas como Corbière, os provençais, John Donne, Klébnikov, Tzara, Mallarmé, Pound (re-leituras). Relia também os concretos e os antropófagos, Sousândrade, Gregório de Matos, Novalis, entre outros. Além de teorias críticas sobre estética, cinema, artes visuais & etc.

R. B.: Há no livro relações com ocultismo? Em caso afirmativo, quais são elas?

J. M.: Há relações hieráticas, formais como a Cabala (intuitivamente), com os Vedas, os Upanishads, o Tao e o Zen...

R. B. : Havia algum interesse especial ao conceber Aorigem? E ao publicá-lo?

J. M.: A concepção da cena d’aorigem foi automática em sua origem e/ou percurso. A meu ver, foi ditada pelo meu OUTRO: EU, in(consciente) psíquico plasmado, uma espécie de “matemática inspirada” no dizer de Pound.

R. B.: Aorigem Diágora é poesia visual?

J. M.: Toda poesia é visual! “Aorigem” está no limiar de uma perspectiva concreta-icônico-simbólica e/ou intersemiótica... “simplesmente poesia como eu necessito”, como disse Cage.

R. B.: No livro Uma história da poesia brasileira, Alexei Bueno não incluiu a poesia dos concretistas, afirmando que esta não é arte verbal, mas arte visual. O que acha dessa perspectiva dada à Poesia Visual?

J. M.: Acho a concepção de Alexei Bueno limitada, porém respeito como uma concepção pessoal. Hoje vivenciamos uma poética intersemiótica, uma poesia “intersignos”. Já no final dos anos 1920, Vertov produziu o filme ”Um homem com uma câmera”, classificado como uma obra “além da literatura e outras artes”.

R. B.: Podemos dizer que há em Natal uma tradição inscrita como Poesia Visual? Ela se mantém? 
J. M.: Há uma tradição no “Rio Noigandres do Norte”, no dizer do poeta Jarbas Martins, de Poesia Visual em trânsito, por outro lado, uma vocação futurista, desde o discurso premonitório de Manoel Dantas “Natal daqui há cinquenta anos” conferência realizada em 21 de março de 1909, marco zero, no mesmo ano de lançamento no Brasil do Manifesto Futurista de Marinetti, em Natal, no Jornal “A República”. Em 1927, o performático poeta moderno Jorge Fernandes lança o seu “Livro de Poemas”, onde a expressão “suspensa” configura caligramaticamente uma rede no poema homônimo, perpassa o grupo Dés de poetas concretos, em 1966, e o lançamento da Poesia concreta no RN, culminando com o movimento de Poesia Visual e Factual, o Poema-Processo, destacando os nomes de Moacy Cirne, Falves Silva, Anchieta Fernandes e Dailor Varela, entre outros, e nos anos 1970/1980 o movimento internacional de Arte-Correio do qual fiz parte, juntamente com Falves Silva e Avelino Araújo.

R. B.: Na época da publicação de Aorigem Diágora, o que você estava produzindo nos outros campos da arte?
J. M.: Poesia Visual, pintura, desenho, arte gráfica, textos...

R. B.: Como se deu o processo criativo de Aorigem Diágora?

J. M.: O processo criativo parte de uma automação psíquica e se desenvolve de forma trans/racional, ou seja, “O lance de dados...” semiológicos“...jamais abolirá o acaso”.

R. B.: Diga-nos sobre sua identificação e envolvimento com o Poema/Processo e com a Arte/Correio... sua arte sempre manteve uma relação estreita com as vanguardas? Como se deu essa aproximação?

J. M. : Sempre na expectativa de realizar algo novo, na perspectiva do “pós-tudo” do “mais novo novo”, como diria Augusto de Campos.

R. B.: Parece possível pensar na obra Aorigem Diágora como uma manifestação entusiasta do acaso, como foi com os dadaístas e os surrealistas, por exemplo. Por outro lado, é perceptivelmente significativa a preocupação com a forma e a sonoridade, como nos poetas formalistas. Há uma síntese? Como vê essa questão?

J. M.: Como uma “síntese”, diáspora... formal & tematicamente.

R. B.: Diante de tudo que já foi feito no campo da arte poética, acha possível o surgimento de vozes autênticas e inovadoras? Vivemos o tempo das infinitas combinações, e nisso consiste o novo, ou o tempo das infinitas repetições, e com isso, há um desgaste do ‘fator surpresa’ da arte poética e talvez das artes em geral? Ou...?

J. M.: “Tudo está em tudo”, já dizia o filósofo grego Anaxágoras. Nos anos 1960 se falava de “nem bom nem ruim”, hoje podemos afirmar bom ou ruim, porém “tudo está em tudo” & “não há nada de novo sob o sol”, a cada segundo há uma revolução cibernético-anárquica do hoje comunicacional informacional, ou como previra Andy Warhol, “no futuro todos serão artistas por 15 minutos”. 


Natal, 01 de outubro de 2013.

(Rodrigo Barbosa da Silva)

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