domingo, 21 de agosto de 2016

Myriam Coeli: “Elegia da Vida Breve”


Myriam Coeli
Há pouco mais de três décadas morria em Natal a poetisa Myriam Coeli [1926-1982]. Nascida em Manaus, norte do país; infância em São José de Mipibu, já no Rio Grande do Norte; adolescência e grande parte de sua vida na capital potiguar. Estudou no Recife onde se formou em Letras. Jornalista, formada por uma universidade de Madri, na Espanha onde conheceria uma das suas maiores paixões, a poesia de Lorca –, sua figura notabilizou-se na imprensa (jornais A República e Diário de Natal) principalmente pela qualidade de seus textos, crônicas e poemas, ao longo dos anos de 1950 e 1960, desde sempre voltados para a percepção existencial do Ser, para o singelo ou para a natureza contemplativa.
O mar, sacudido pela viração, desata seu canto. As rochas parecem mover-se palpitantes – pássaros de pedras – na solidão. Agita-lhes os braços esverdeados das ondas inquietas. Braços de ondas que se enroscam nas pedras e oferecem flores de espumas. O mar se movimenta em seu volume verde vivo. Canta e vive”. Como não reconhecer nesse trecho da crônica “Marinha” a profundidade e a leveza dessa voz cheia de angústia de Myriam Coeli? Voz que reconhece o mar em sua eterna transitoriedade enquanto locus das transfigurações. Em sua poesia, outras imagens como a do pássaro, a da rosa, a do ar, a do fogo farão parte do seu imaginário lírico. Mas isso é só uma faceta da sua escrita
Consciente do fazer poético, típico da Geração pós 45 ­que influenciou uma plêiade, em Natal, de excelentes poetas, Antônio Pinto de Medeiros, Augusto Severo Neto, Zila Mamede, Luís Carlos Guimarães, Deífilo Gurgel, Dorian Gray e Sanderson Negreiros com nítida habilidade no manuseio das formas clássicas, pois sempre se dedicou ao estudo delas, Myriam Coeli escreveu o que podemos chamar de uma poesia da consolação, de timbre agônico e resignado, marcado pelo equilibro estético-formal e pela capacidade de sondar a inquietação do espírito. O seu lirismo é o das linhas harmônicas estruturalmente falando, porque tudo nela é conduzido de forma muito serena, animado pelo jogo lexical, preso em geral à rima e à musicalidade.
Nesse sentido, a poetisa encarou os temas universais da lírica expressando uma visão metafísica ao mesmo tempo em que abordou os aspectos do cotidiano, traçando as suas tensões existenciais como podemos perceber em muitas elegias e odes. Suas cantigas de amigo, por exemplo, são um retorno belíssimo à tradição trovadoresca, à poética medieval galego-portuguesa.
Poetisa que busca a perfeição de ritmos e formas, porém sem deixar de transmitir o sentimento, a sua amargura é desatada da emoção indireta, ou seja, advinda da experiência emoldurada pela palavra. Extraídos do poema “Elegia da vida breve”, ouçamos esses versos: “Essa dor de saber-me existe e subsiste / absurda, mas real / na lúcida calma que me compõe”.
Essa mulher, de religiosidade forte, e que lutou contra um câncer até as últimas horas de vida não nos esquecemos disso tinha uma visão muito humana sobre o mundo e deixou transparecer em diversos poemas a preocupação social frente à miséria e à pobreza que assola os desfavorecidos e os excluídos.   
Os quatro livros de poesia, Imagem virtual (1961), Vivência sobre vivência (1980), Cantigas de amigo (1981) e Inventário (1981), publicados em vida, permaneciam esgotados há bastante tempo, guardados à sombra silenciosa das prateleiras de bibliotecas ou talvez de alguns sebos, até que os seus filhos – Cristiana Coeli e Elí de Araujo – decidiram tomar a inciativa de editá-los com recursos próprios, de maneira independente, numa espécie de “Poesia reunida”, acrescentando alguns poemas inéditos e esparsos.
A sua obra poética deve ressurgir nesse ano de 2016, numa edição que pode ser pensada como comemorativa do nascimento da poetisa, que, em novembro, se viva fosse, faria 90 anos.
Tudo indica também que a edição será extremamente cuidadosa do ponto de vista gráfico, encadernada em capa dura, folha especial, tendo sido contratado para supervisionar e preparar o projeto de reedição das obras de Myriam Coeli o selo editorial Sol Negro, de Márcio Simões, que faz livros artesanais, costurados, numerados e que tem se destacado no cenário alternativo de Natal pela beleza das edições.
O volume se completa com uma fortuna crítica que inclui textos assinados por nomes como os de Franklin Jorge, que conheceu e foi um dos seus poucos amigos em vida, Dorian Jorge Freire, Humberto Hermenegildo e José Wilson Pereira de Macedo.
A poesia reunida pela primeira vez de Myriam Coeli será muito bem-vinda para a literatura do Rio Grande do Norte, tendo em mente as novas gerações de leitores e as pesquisas que isso pode gerar no futuro. Embora a sua poesia já tenha sido estudada nos meios acadêmicos e o seu nome conste em várias antologias, a chegada da sua obra poética deve promover novos interesses e debates, pois assim esperamos.   
Em nossa visão, a poetisa extrapola com facilidade a noção de regionalismo tal qual outras escritoras potiguares, a exemplo de Auta de Souza, Palmira Wanderley, Zila Mamede, merecendo sim, por brilho próprio, estar no panteão da literatura brasileira.

João Antônio Bezerra Neto
 

Sobre “Campana en el fondo del río”

Capa do livro "Campana en el fondo del río"
Acaso una de las razones que llevó al gran poeta, ensayista, fotógrafo, traductor y promotor de la poesía brasileño Floriano Martins a verter al idioma de Mario de Andrade 30 poemas de Miguel Márquez, bajo el título de “Campana en el fondo del río” (“Bronze no fundo dorio”), sea el aura surreal que envuelve gran parte de los textos que el poeta venezolano suele publicar a través de este medio el FB.
Para muchos de nosotros es sabido (o quizás sólo intuimos) que Miguel roza profundamente la realidad en su poesía, es decir, vela lo otro con una crudeza que a ratos frisa cuanto vemos en la mágica, cosmopolita y extrapuesta cotidianidad de esta existencia nuestramericana.
“Precipito el hambre contra la luz del cuarto,/ Ramifico obsesiones con dátiles, albahaca,/ Pienso que lo más cercano está perdido, lejos,/Aúllo de vez en cuando detrás de los ventiladores” - dice.
Ese Yo Otro apenas si da cuenta de la ristra de personajes que deambulan, ríen asomados, claman o dormitan en la poesía de Miguel como Pedros por sus casas. Vale la pena, les digo a ustedes sin que me quede nada por fuera, con un espejo en el pecho.
La fiesta verbal a que nos acostumbra(ba) Miguel Márquez por el Facebook ahora se hace danza de imágenes, pero una danza que a veces es un tango punteado y otras saltos rítmicos alrededor de la hoguera; y en esto, Miguel va creando con la fotografía otro discurso tal como el mismísimo Floriano, con genio de poetas ambos en este libro que suele tener su cara amable cuando quiere y puede.
He sentido felicidad al degustar la lectura brasileña de estos textos que ya habíamos disfrutado tan venezolanamente. Y los ensayos fotográficos de Floriano Martins son una maravilla que nos regala Sol Negro Ediciones (2014).

Leonardo Gustavo Ruiz Tirado